Blog Edileusa Rosária

FILOSOFIA PARA MULHERES

Eu que nunca conheci os homens

Jacqueline Harpman constrói, em Eu que nunca conheci os homens, uma distopia de grande força filosófica. O romance acompanha uma jovem que passou toda a vida confinada em um porão, junto a outras mulheres, sem conhecer o mundo exterior, os homens, a família, o amor ou a própria história. Quando conseguem escapar, encontram um mundo devastado e aparentemente sem outros sobreviventes.

A protagonista não possui sequer um nome próprio. É chamada de “pequena”, e sua formação intelectual acontece graças à solidariedade das mulheres mais velhas, que guardam fragmentos de memória sobre o mundo que existia antes e vão transmitindo o pouco conhecimento que possuem. Assim, a “pequena” começa a construir sua própria compreensão da vida. O romance tem forte influência existencialista.

A autora também não explica completamente quem confinou aquelas mulheres, por que existiam os guardas ou o que aconteceu com a humanidade. E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças do livro: nós leitoras permanecemos tão perdidas quanto a protagonista.

A dimensão feminista da obra também é muito interessante. Mesmo vivendo em uma sociedade exclusivamente feminina, as personagens não estão livres de hierarquias e controle. As mulheres mais velhas guardam informações, estabelecem regras e decidem o que a jovem pode ou não saber. O conhecimento é tratado como uma forma de poder.

Ao mesmo tempo, o livro apresenta uma bonita reflexão sobre a sororidade. Em um mundo devastado, o cuidado, a solidariedade e os vínculos entre aquelas mulheres tornam-se formas de resistência. Harpman mostra que a sobrevivência não é apenas individual: é coletiva.

A protagonista também nos faz pensar sobre o que, afinal, nos torna humanas. Ela não conhece as convenções sociais, a religião, o dinheiro ou os papéis de gênero, mas desenvolve solidariedade, curiosidade, responsabilidade e capacidade de reflexão. Sua humanidade aparece na maneira como enfrenta a dor, cuida das mulheres doentes, dos mortos e tenta compreender o mundo.

A morte atravessa toda a narrativa, mas não aparece de forma espetacular. As mulheres envelhecem e morrem uma a uma, enquanto a protagonista permanece. O livro trata a morte como algo íntimo, inevitável, levantando questões sobre cuidado, autonomia e dignidade.

A narrativa em primeira pessoa aproxima o leitor da consciência da protagonista. A linguagem é contida, e o ritmo pode parecer lento para quem espera uma distopia cheia de ação e explicações.

Mas essa ausência de respostas faz parte da experiência. A “pequena” não sabe o que aconteceu com o mundo e nós também não. Em vez de entregar soluções, Harpman nos oferece perguntas.


Eu que nunca conheci os homens é um romance sobre o que resta da humanidade quando desaparecem a sociedade, a memória e as certezas. É uma obra sobre solidão, cuidado, morte, conhecimento e sobre a necessidade de encontrar significado mesmo quando tudo parece ter perdido o sentido.

É também uma leitura profundamente provocadora sobre as mulheres, seus vínculos e o poder do conhecimento.

Para mim, porém, uma das mensagens mais preciosas do livro é a busca da protagonista pelo conhecimento. Fica claro que as mulheres que tiveram acesso ao estudo eram também as que assumiam posições de liderança no grupo. Não por acaso: o conhecimento é uma forma de poder, e o poder de pensar é o único que ninguém consegue confiscar.

Para nós, mulheres, essa mensagem ganha ainda mais força quando lembramos que o acesso ao conhecimento e à educação nos foi tantas vezes negado ou limitado. Estudar, nesse contexto, não é apenas adquirir conhecimento: é conquistar autonomia, ampliar possibilidades e preservar a liberdade de pensar por nós mesmas.

Não é um livro confortável, nem pretende ser conclusivo. Talvez por isso continue conosco depois da última página.

E é justamente aí que está sua força: o livro termina, mas a pergunta permanece: O que nos torna humanas: a memória, os vínculos, a linguagem, a liberdade ou a capacidade de cuidar dos outros?


SOBRE A AUTORA:

"Jacqueline Harpman (1929-2012) foi uma escritora e psicanalista belga de origem judaica. Sua vida foi marcada na juventude pela invasão nazista do país, que obrigou sua família a fugir para Casablanca até o final da guerra. Depois de estudar literatura francesa, ela começou sua carreira médica, mas contraiu tuberculose e não conseguiu completar os estudos. Formou-se em psicologia e depois em psicanálise, que exerceu desde então até sua morte. Publicou seu primeiro trabalho em 1958, mas parou de escrever depois de oito anos; retomou sua carreira literária duas décadas depois e lançou quinze romances, que lhe renderam vários prêmios literários, incluindo o Médicis, em 1996." 

Nota de fonte: As informações biográficas sobre Jacqueline Harpman foram retiradas da página da autora na Amazon. Acesso em: 9 set. 2026.

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