
E se alguém ainda perguntar: “Mas existiram mulheres na filosofia?”, Dez Mulheres Filósofas: e como suas ideias marcaram o mundo, de Armin Strohmeyr, é uma excelente resposta.
Ao reunir dez pensadoras que viveram entre o século XII e o século XXI, o autor nos conduz por uma história da filosofia que muitas vezes foi esquecida ou deixada de lado.
Mas é importante destacar: estas dez mulheres representam apenas uma pequena parte das inúmeras filósofas que existiram e contribuíram para a história do pensamento. Muitas outras permaneceram invisibilizadas ao longo dos séculos, seja porque suas obras não foram preservadas, seja porque suas ideias foram atribuídas a homens ou simplesmente não receberam o mesmo reconhecimento.
Por isso, o trabalho de pesquisadoras e estudiosas que continuam encontrando, recuperando e dando visibilidade a mulheres cujos pensamentos foram apagados, esquecidos ou ignorados é tão importante. E é nesse movimento de recuperação de uma história que ainda está sendo reconstruída que encontramos pensadoras como as dez apresentadas neste livro.
Heloísa, Hildegarda de Bingen, Cristina de Pisano, Émilie du Châtelet, Ricarda Huch, Edith Stein, Simone Weil, Hannah Arendt, Simone de Beauvoir e Jeanne Hersch viveram épocas, experiências e circunstâncias muito diferentes. O que as aproxima é a coragem de pensar em um mundo que nem sempre estava disposto a escutá-las.
O livro começa com uma ideia muito bonita: a filosofia nasce do espanto. Mas que espanto é esse quando quem deseja conhecer não tem acesso às universidades, aos livros ou aos espaços de produção do conhecimento?
A primeira filósofa citada pelo autor é Heloísa. Ela transformou sua própria experiência de amor, sofrimento e separação em reflexão sobre o desejo, a liberdade e a responsabilidade. Hildegarda de Bingen, vivendo em um mosteiro medieval, reúne espiritualidade, natureza, medicina, música e conhecimento, mostrando que a busca pelo saber pode ultrapassar as fronteiras estabelecidas por sua época.
Cristina de Pisano, viúva e responsável pelos filhos, encontrou na escrita uma forma de sustento e de resistência. Em O Livro da Cidade das Damas, defendeu a capacidade intelectual das mulheres e questionou uma sociedade que utilizava a falta de educação para justificar sua suposta inferioridade.
Séculos depois, Émilie du Châtelet dedicou-se à matemática, à física e à filosofia, defendendo também o direito das mulheres ao conhecimento e à felicidade. Já Ricarda Huch mostrou que pensar pode ser uma forma de resistência política diante da violência e do autoritarismo.
As experiências de Edith Stein e Simone Weil revelam outras dimensões da filosofia. Stein investigou a empatia, a pessoa e a relação entre indivíduo e comunidade. Weil aproximou pensamento, experiência social e espiritualidade, chegando a trabalhar em fábricas para compreender de perto a realidade dos trabalhadores.
Com Hannah Arendt, entramos nas questões do totalitarismo, da liberdade e da responsabilidade. Sua reflexão sobre a “banalidade do mal” continua provocando uma pergunta incômoda: o que acontece quando deixamos de pensar e simplesmente obedecemos?
Simone de Beauvoir talvez seja a voz mais conhecida desse grupo. Ao afirmar que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, questionou a ideia de que os papéis atribuídos às mulheres seriam determinados pela natureza. Sua filosofia da liberdade continua fundamental para pensar identidade, escolhas e responsabilidade.
Por fim, Jeanne Hersch recupera o próprio sentido do filosofar: o exercício de questionar aquilo que parece evidente e defender a liberdade e a dignidade de cada pessoa.
Mais do que apresentar biografias, Strohmeyr mostra como vida e pensamento estão profundamente ligados. Essas mulheres filosofaram a partir de suas experiências: o amor, a maternidade, a solidão, a perseguição, o exílio, a guerra, a desigualdade, a fé, o trabalho e a busca pela liberdade.
Temos que ter em mente que a história da filosofia não é formada apenas por grandes sistemas e conceitos abstratos. Ela também é feita de mulheres que pensaram enquanto viviam, sofreram, lutaram, trabalharam e enfrentaram as limitações de seu tempo.
O posfácio de Nastassja Pugliese amplia ainda mais essa conversa ao apresentar algumas pensadoras brasileiras, aproximando essa história da nossa própria realidade.
Dez Mulheres Filósofas é, portanto, mais do que uma introdução ao pensamento de dez mulheres. É um convite para você conhecer outras formas de pensar e, principalmente, para perceber que filosofar também pode ser uma maneira de compreender a própria vida.
Talvez, depois de fechar o livro, a pergunta já não seja mais se existiram mulheres na filosofia.
A pergunta será: quantas ainda precisamos descobrir?
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