Blog Edileusa Rosária

FILOSOFIA PARA MULHERES

Fato ou fake: a ficção científica foi criada por uma mulher?

Um escritor pode imaginar uma sociedade distópica, pensar nas consequências de uma nova tecnologia ou construir uma complexa intriga política.

Mas a posição social de quem escreve também interfere naquilo que consegue enxergar.

As mulheres, historicamente atravessadas por estruturas de desigualdade, chegaram à ficção científica trazendo experiências que muitas vezes não apareciam no centro dessas narrativas.

Antes de imaginar robôs, viagens no tempo e mundos distantes, algumas mulheres já estavam fazendo uma coisa muito mais instigante: imaginando que o mundo poderia ser diferente.

Talvez seja justamente por isso que a ficção científica tenha uma relação tão particular com as mulheres.

Muito antes de o gênero ganhar a forma que conhecemos hoje, mulheres já usavam a imaginação para questionar as regras do mundo em que viviam.

No século XVII, Margaret Cavendish escreveu The Blazing World, uma narrativa sobre um mundo alternativo habitado por animais falantes e organizado segundo suas próprias regras e formas de sociedade.

Séculos depois, outra mulher mudaria para sempre a história do gênero: Mary Shelley.

Ela não criou apenas um monstro! Quando publicou Frankenstein, em 1818, Shelley não estava simplesmente contando uma história assustadora sobre uma criatura feita em laboratório. Estava perguntando o que acontece quando o ser humano ultrapassa os limites daquilo que consegue controlar. O que define uma pessoa como humana? E o que acontece quando alguém nasce em um mundo que não sabe como aceitá-lo?

É difícil pensar em perguntas mais fundamentais para a ficção científica.

E talvez esteja aí uma das chaves para entender a força desse gênero literário: ele não precisa apenas imaginar aquilo que ainda não existe. Pode usar o impossível para revelar aquilo que já existe, mas que nos acostumamos a considerar natural.

Quando você inventa uma história de ficção, pode mudar regras. Alterar relações de poder. Transformar aquilo que entendemos por família, liberdade, autoridade ou pertencimento.

E, quando essas regras mudam, uma coisa curiosa acontece: aquilo que parecia inevitável passa a parecer apenas uma escolha.

É justamente nesse espaço que muitas autoras encontraram uma possibilidade de criação.

Historicamente dominada pela autoria e pela perspectiva masculina, a ficção científica ganhou novas perguntas quando mulheres passaram a transformar suas próprias experiências sociais em matéria literária.

Uma autora poderia falar sobre alienígenas, viagens espaciais, inteligência artificial ou sociedades futuras  e ainda assim perguntar quem tem poder, quem é considerado humano, quem pode decidir seu próprio destino e quem precisa se adaptar às regras criadas por outras pessoas.

Octavia Butler (1947–2006), Ursula K. Le Guin (1929–2018), N. K. Jemisin (1972) e tantas outras autoras ampliaram essas possibilidades, mostrando que o futuro também pode ser um laboratório para pensar outras formas de organizar a vida humana.

A tecnologia continuava ali. Os mundos imaginários também. Mas, por trás deles, havia perguntas sobre cultura, desigualdade, identidade, relações de poder, pertencimento e sobrevivência.

A autora não precisa construir uma galáxia distante para criar estranhamento. Basta retirar algumas certezas. E observar o que acontece.

Quem somos quando tudo aquilo que conhecíamos desaparece?

O que sobra de uma sociedade quando suas regras deixam de existir?

E o que descobrimos sobre o nosso próprio mundo quando somos obrigados a imaginá-lo de outra maneira?

Talvez seja justamente essa uma das características mais fascinantes da ficção científica escrita por mulheres: às vezes, basta mudar uma regra do nosso próprio mundo para que finalmente consigamos enxergá-lo.

Por isso, quando alguém diz que a ficção científica é um gênero sobre o futuro, talvez valha acrescentar: ela também é sobre o presente que ainda não conseguimos questionar.

E talvez seja por isso que tantas mulheres tenham encontrado nela um território tão fértil.

Então, afinal: a ficção científica foi criada por uma mulher? Fato ou fake?

Talvez a grande surpresa seja outra.

A ficção científica nunca foi apenas sobre inventar o que ainda não existe.

Antes das naves, dos robôs e das cidades em outros planetas, já havia mulheres fazendo uma pergunta muito mais potente: e se o mundo pudesse ser outro?

E talvez seja aí que a ficção científica comece.


Se você quiser se aprofundar neste tema, a Enciclopédia Mulheres na Filosofia, do blog da Unicamp, tem um verbete dedicado à vida e à obra de Cavendish – da filosofia da natureza a O Mundo Resplandecente (The Blazing World), de 1666, obra em que ela se declara, literalmente, “autora de todo um mundo”.

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