
A proposta narrativa de Elif Shafak em 10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho desafia a linearidade biológica e a compreensão convencional da morte. Publicado em 2019 e finalista do Booker Prize, o romance se passa majoritariamente em Istambul e mergulha nas margens sociais da Turquia contemporânea.
Ao situar o início da narrativa no momento exato em que o coração de Leila Tequila para de bater, a autora nos convida a explorar uma zona de indeterminação – aquele breve hiato onde a biologia encerra seu ciclo, mas a consciência recusa-se a apagar.
Filosoficamente, a obra dialoga com a noção de finitude e com a fragilidade da existência, mas Shafak subverte essa angústia ao transformar os últimos 638 segundos de atividade cerebral de Leila em um caleidoscópio de memórias sensoriais.
A morte não é apresentada como um ponto final, mas como um processo de descompressão da alma, onde o tempo deixa de ser cronológico (Chronos) para se tornar oportuno e qualitativo (Kairos).
Nesse sentido, a narrativa sugere que talvez não sejamos apenas aquilo que realizamos em vida, mas também o conjunto de vínculos que construímos, como as amizades cultivadas, os afetos partilhados e as marcas que deixamos na experiência dos outros.
O brilhantismo da obra reside no fato de que, embora saibamos o destino final da protagonista desde a primeira página, o suspense não é sobre se ela morre, mas sobre quem ela foi e como o mundo a moldou ou tentou moldá-la. A trajetória de Leila Tequila, de uma infância marcada pelo conservadorismo em Vã até os bordéis de Istambul, é um retrato brutal da condição feminina sob as amarras do patriarcado.
A autora utiliza as memórias de Leila para denunciar um sistema social que marginaliza corpos e silencia vozes. Cada minuto de consciência traz à tona um cheiro, um gosto ou uma textura que serve de portal para o passado: o guisado de bode, o limão e o açúcar da cera, o café com cardamomo.
A experiência sensorial aqui não é mero recurso estilístico; é uma afirmação de que o corpo guarda aquilo que a sociedade tenta apagar. Através desses estímulos, Shafak constrói uma crítica à hipocrisia de uma sociedade que consome o corpo da mulher enquanto a condena moralmente.
Mas, a principal lição que emana das páginas deste livro é, sem dúvida, sobre a amizade. Em um mundo que a rejeitou, desde sua família biológica até o sistema legal de Istambul, Leila encontra sua verdadeira essência nos “Cinco”: Sinan Sabotagem, Nalan Nostalgia, Jameelah, Zaynab122 e Humeyra Hollywood.
A amizade aqui não é apenas um afeto; é uma ética de cuidado e uma forma de resistência.
Eles são os únicos que se recusam a deixar que Leila seja apenas um corpo descartado no Cemitério dos Solitários. A busca desses personagens por um enterro digno para ela é um ato de afirmação da vida e do valor intrínseco de cada ser humano, independentemente de sua posição social.
10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho é uma obra agridoce. É triste em sua denúncia da violência, do preconceito e da solidão, mas profundamente encantadora em sua celebração da resiliência humana. Elif Shafak consegue o prodígio de escrever uma história sobre a morte que transborda vitalidade.
É difícil não se envolver com a história de cada um desses personagens. A autora confere voz, com sensibilidade, àqueles que a sociedade insiste em tratar como páreas, ao mesmo tempo em que expõe e denuncia as barbáries cometidas contra seus corpos.
A lição final é que, embora o mundo possa ser “estranho” e muitas vezes cruel, a beleza reside na capacidade de criar laços que desafiam a própria finitude.
É um convite para olharmos para as margens da sociedade não com pena, mas com o reconhecimento de que ali também habitam histórias de um brilho incomparável.
Uma leitura essencial para quem busca compreender as nuances do trauma, a força do feminino e, acima de tudo, o poder salvador da amizade.
Espero que gostem desta indicação. Seguimos juntas nessa jornada rumo à emancipação intelectual.
🦉 Com carinho, Edileusa Rosária.
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