
Há livros que nos permitem pousar. “Tudo é Rio” não é um deles. Desde as primeiras páginas, somos lançadas numa correnteza emocional sem margem segura: dor, ódio, amor, compaixão e violência se sucedem como águas turvas.
A sensação de estar numa roda gigante de emoções não é acidental: é o projeto estético da obra. Cada personagem é construído com maestria psicológica, cada história se entrelaça de forma orgânica, prendendo o(a) leitor(a) do começo ao fim não por artifícios de suspense barato, mas pela densidade existencial que carregam.
É um texto que incomoda e por isso mexe com nossos sentidos. Aqui reside a força da obra. O incômodo não é defeito – é método. A narrativa não nos oferece o conforto da resolução fácil, da moral clara, do final redentor que apazigua. Ela nos perturba, e essa perturbação é filosófica.
Quando estava lendo, me lembrei do filósofo Heráclito e o seu célebre fragmento “Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio”. Tudo flui, tudo se transforma, inclusive a dor, inclusive o amor, inclusive aquilo que acreditamos compreender sobre nós mesmas.
O final é para refletir. É muito questionável, inclusive. E aqui está o golpe final. Um final que não entrega a catarse esperada é um final que respeita a inteligência do leitor. Ele não resolve, mas abre para a reflexão. Ele não apazigua, ele provoca.
Esse tipo de desfecho é raro na literatura contemporânea, que muitas vezes cede à pressão do mercado por finais “satisfatórios” e politicamente correto.
“Tudo é Rio” recusa essa concessão. Ele prefere nos deixar com perguntas e não com respostas. E isso, longe de tirar o brilho da obra, é o que confere potência filosófica.
Opto não entrar em detalhes dos personagens, portanto, irei transcrever apenas a chamada do livro na Amazon, que sintetiza bem o ponto de partida da narrativa:
Com uma narrativa madura, precisa e ao mesmo tempo delicada e poética, o romance narra a história do casal Dalva e Venâncio, que tem a vida transformada após uma perda trágica, resultado do ciúme doentio do marido, e de Lucy, a prostituta mais depravada e cobiçada da cidade, que entra no caminho deles, formando um triângulo amoroso.
Para o público do Filosofia para Mulheres, este livro é especialmente relevante. Tudo é Rio nos lembra que a vida das mulheres é, muitas vezes, um rio turbulento, marcado por violências silenciosas, por amores que aprisionam, por escolhas que nos definem e nos destroem.
Dalva e Lucy não são apenas personagens, elas são espelhos de experiências femininas reais, de mulheres que navegam entre a dor e a resistência, entre a submissão e a revolta.
Ler Tudo é Rio não é atravessar uma história. É aceitar ser atravessada por ela.
E você? Já leu este livro? Se ainda não, aproveite a oportunidade.


